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Lula tenta transformar Trump em aliado contra Rubio, diz o Financial Times

Lula tenta transformar Trump em aliado contra Rubio, diz o Financial Times

Lula tenta transformar Trump em aliado contra Rubio, diz o Financial Times

Lula busca apoio de Trump para enfrentar Rubio, informa o Financial Times

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a considerar Donald Trump como um possível aliado, e não como um oponente, diante da crise diplomática em crescimento entre o Brasil e os Estados Unidos. Essa estratégia surge em meio à corrida presidencial de outubro, que promete colocar Lula contra Flávio Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O Financial Times publicou a análise, assinada por Amy Mackinnon, Michael Pooler e Geoff Dyer. De acordo com o jornal britânico, a relação entre Lula e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, atingiu um ponto de conflito incomum, com ambos os lados trocando críticas publicamente.

Rubio acusou Lula de priorizar seu “próprio ego” em detrimento dos interesses do povo brasileiro. Em resposta, o presidente brasileiro chamou o secretário de Estado americano de um “latino-americano frustrado” que “odeia o Brasil”.

Frente a esse impasse, Lula buscou se aproximar diretamente de Trump. Na semana passada, o presidente brasileiro expressou sua intenção de ligar para o republicano para reclamar das ações de Rubio, afirmando que o secretário de Estado estava adotando posições distintas das previamente discutidas com Trump.

“Ele [Rubio] está agindo de forma diferente do que tínhamos combinado com Trump”, declarou Lula.

O diálogo entre os dois presidentes ocorreu na sexta-feira, com a conversa durando mais de uma hora. O governo brasileiro descreveu a interação como “amigável e cordial”. Lula e Trump concordaram sobre a importância de manter relações comerciais sólidas entre Brasil e Estados Unidos. Contudo, a nota oficial não mencionou a eleição brasileira.

Lula vê Trump como possível contrapeso a Rubio

Conforme o Financial Times, membros do governo brasileiro acreditam que a política externa dos EUA no segundo mandato de Trump tornou-se mais ideológica e passou a privilegiar aliados da direita latino-americana.

Um alto funcionário brasileiro afirmou ao jornal que há uma “agenda da extrema direita brasileira alinhada com a extrema direita no Departamento de Estado” americano.

Essa percepção marca uma mudança em relação ao primeiro mandato de Trump, quando diplomatas estrangeiros frequentemente buscavam o Departamento de Estado para suavizar propostas mais radicais do então presidente.

Agora, Brasília considera que Trump pode desempenhar um papel moderador dentro de seu governo, apesar de reconhecer que é o presidente americano quem define as diretrizes gerais da política externa.

“Trump é o mais sensato de todos eles [no governo americano], é quem me ouve com mais seriedade”, afirmou Lula. “Nós dois somos líderes de Estado, dois homens na casa dos 80 anos.”

O Departamento de Estado americano, por sua vez, afirmou que respeitará “qualquer governo que o povo brasileiro escolher” e destacou ter mantido “relações muito bem-sucedidas” com governos brasileiros de diversas orientações políticas.

Trump e Lula estabelecem relação pessoal

A tentativa de Lula de se comunicar diretamente com Trump ocorre apesar das profundas divergências entre os dois governos.

No ano passado, Brasil e EUA entraram em conflito quando Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros importados pelos americanos, impactando o Brasil significativamente na política comercial da Casa Branca.

Ainda assim, Lula conseguiu construir uma relação pessoal relativamente próxima com Trump. Os dois se encontraram brevemente durante a Assembleia-Geral da ONU no ano passado, momento em que Trump mencionou ter havido uma “excelente química” entre eles.

A pressão de empresas brasileiras e americanas com interesses no Brasil também contribuiu para a redução de parte das tarifas impostas por Washington.

Washington é acusado de favorecer os Bolsonaro

Segundo diplomatas brasileiros, a situação mudou com o início do conflito entre Israel e Irã. Brasília percebe que a atenção da Casa Branca ao conflito permitiu ao Departamento de Estado adotar uma postura mais hostil em relação ao Brasil.

O governo de Lula acusa membros da diplomacia americana de beneficiar a família Bolsonaro e de se aliar a setores da direita brasileira.

Em março, o Brasil cancelou o visto de Darren Beattie, alto funcionário do Departamento de Estado americano, após descobrir que ele planejava se reunir com Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar por envolvimento na tentativa de golpe após a derrota nas eleições de 2022.

Em julho, quando Washington anunciou uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, Rubio declarou que as políticas de Lula eram “prejudiciais tanto para os americanos quanto para os brasileiros”.

No mês passado, outros dois funcionários do Departamento de Estado tiveram a entrada no Brasil vetada. Segundo Brasília, eles pretendiam questionar a integridade das urnas eletrônicas brasileiras, repetindo acusações infundadas feitas por membros do bolsonarismo.

Um funcionário brasileiro entrevistado pelo FT sugeriu que a ação coincidia com declarações dos irmãos Bolsonaro e insinuou uma possível coordenação para disseminar desinformação sobre o processo eleitoral.

O governo americano nega a acusação de interferência nas eleições brasileiras. Um funcionário afirmou ao jornal que a intenção dos diplomatas era apenas manter conversas “absolutamente normais” sobre a integridade eleitoral e classificou a reação brasileira como “estranha”.

Segundo esse funcionário, Lula estaria deliberadamente provocando Washington para gerar uma reação que pudesse beneficiá-lo eleitoralmente.

Rubio mantém pressão sobre Lula

Apesar da tentativa de Lula de estabelecer Trump como um interlocutor privilegiado, o Departamento de Estado deixou claro que considera o governo brasileiro um adversário em várias questões.

Em junho, Rubio afirmou ao Congresso americano que a América Latina estava sob domínio de uma “coalizão de países amigos” dos Estados Unidos. As exceções seriam Cuba, Nicarágua, Venezuela — regimes autoritários, segundo Rubio — e, “é claro, o Brasil”.

Washington também critica a participação brasileira no Brics, a postura de Lula em relação a Cuba e Venezuela, e a oposição contínua do governo brasileiro às políticas comerciais americanas.

Um funcionário americano declarou que Lula “constantemente adotou posições de extrema esquerda” contrárias aos interesses dos Estados Unidos.

Brasil reduz dependência dos EUA

Para Matias Spektor, especialista em política externa da Fundação Getulio Vargas (FGV), o embate entre Brasília e Washington é praticamente inevitável devido à menor dependência do Brasil da economia americana atualmente.

Cerca de um terço das exportações brasileiras têm a China como destino, em comparação com aproximadamente 11% destinadas aos Estados Unidos.

Spektor prevê que a turbulência aumentará até as eleições, mas após outubro, a cooperação entre os dois países em áreas como segurança provavelmente continuará, independentemente do vencedor.

“Eles prefeririam Bolsonaro como presidente? Claro”, disse Spektor. “Mas Marco Rubio não comprometerá a relação.”

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