Mulheres da geração 68 reinventam a maturidade | Eu &
Elas fazem parte da geração 68, aquela que fez da juventude um valor, lutou contra a ditadura, mudou o jeito de ser mulher e, agora, aos 70+, reinventa a velhice. No passado, cantaram que não confiavam em ninguém com mais de 30 anos, mas ultrapassaram essa marca e, aos 70 ou 80, são sucesso nos palcos, nas galerias de arte, em museus, nas livrarias, nas diferentes mídias, atrás ou na frente das câmeras. Elas desafiam o etarismo, o apagamento dos mais velhos, chamado de “o último tabu” pela pensadora Simone de Beauvoir (1908-1986).
O significado da velhice depende do sentido que a sociedade dá à vida e da maneira pela qual a sociedade se comporta. A percepção da velhice vem mudando e, de novo, a geração 68 inova ao caminhar para uma “velhice insubmissa”. Aposentadoria? Nem pensar.
Lúcia Murat, 77 anos, é a diretora com o maior número de filmes na América Latina. Prepara-se para lançar seu 15º longa-metragem em novembro, “O sertão das nossas memórias”.
É um road movie no qual três sobreviventes dos anos de chumbo vão em busca de testemunhos locais sobre os últimos dias de vida de Zequinha e Carlos Lamarca, dois guerrilheiros em luta contra a ditadura, mortos pelo Exército em 17 de setembro de 1971.
“Eu sou acelerada, não abro mão de convites que me oferecem”, diz a artista Iole de Freitas — Foto: Leo Pinheiro/Valor
A data virou feriado em Brotas e Ipupiara, duas cidades do sertão, onde até hoje eles são homenageados todos os anos com procissão e missa no memorial construído para lembrar a vida dos dois. Comovido com o passado de violência na região, a cerca de 650 km de Salvador, o bispo católico Dom Luiz usou o dinheiro de um prêmio recebido na Alemanha para construir o memorial, com bustos que reproduzem momentos marcantes da história deles.
Míriam Leitão, 73 anos, jornalista, escritora e imortal da Academia Brasileira de Letras, vive um frenético dia a dia entre a disputa pelos furos jornalísticos e análises políticas ou econômicas na TV Globo, na rádio CBN e no jornal O Globo. A jornada estressante não a impede de ter presença forte nas livrarias, e neste ano lançará “A dança de Elisa” (Editora Intrínseca), a segunda obra de ficção entre os seus 18 livros já publicados.
É uma história feminista, com uma dançarina como personagem principal, vivendo numa sociedade em pleno retrocesso conservador. Para garantir que não deixará o jornalismo ocupar toda a sua vida, Miriam tem em casa um escritório só dedicado à literatura e um segundo usado para o dia a dia de sua profissão.
Iole de Freitas, 80 anos, estava animadíssima com a viagem de sete horas para a aldeia guarani onde convidaria quatro artistas indígenas para levarem as fortes e belas pinturas deles, que, junto com obras dela, comporiam um painel de 14 metros na ArPa, feira de arte recém-realizada em São Paulo.
“A gente sempre teve ordens para não fazer o que a gente fez. Fizemos e deu certo”, conta Míriam Leitão — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo
“Eu fico com as duas orelhas do painel, e eles com os dez metros centrais”, disse. Na véspera da partida, a mãe da curadora foi internada e a viagem, cancelada. Iole não desanimou: escolheu quatro trabalhos feitos pelos artistas quando estavam no laboratório das Escolas Vivas do MAM, ano passado. “A ideia é trazer uma voz e um olhar novo para a feira e os debates”, dizia.
Com uma trajetória internacional de 50 anos, Iole sempre tem uma nova primeira vez a contar. Recentemente, suas obras monumentais em aço e vidro inspiraram delicadíssimas joias, em metal e mínimas fileiras de diamantes, produzidas pela H.Stern.
Zezé Motta, 81 anos, é mito e musa do movimento negro. Está vivendo um momento de celebração da sua carreira (35 novelas, 41 filmes, 14 discos) e enfileira convites incessantes de trabalho. Depois de oito anos de ausência nas novelas, ela volta à Globo em “A nobreza do amor” como Dona Menina, uma benzedeira que transita entre o sagrado e o cotidiano. “Ela tá chegando devagarinho, mas ela ainda vai acontecer”, diz.
Um musical sobre a sua vida, “Prazer, Zezé”, a fez chorar muito na primeira fila do Teatro Raul Cortez, em São Paulo, ao rever momentos difíceis da sua vida. Como cantora, ela homenageou Elizeth Cardoso e Luiz Melodia; emendou com o monólogo “Vou fazer de mim um mundo”, de Maya Angelou, a escritora e ativista negra americana, cuja biografia começa com um estupro.
Zezé Motta, que teve a vida relembrada no musical ‘Prazer, Zezé’, volta à Globo na novela ‘A nobreza do amor’ — Foto: Fábio Roch/TV Globo
“Me identifiquei muito com ela, com as minhas inseguranças e as minhas batalhas. Já tive muito medo de não ter convites de trabalho por causa da idade, a sorte é que sou ‘cantatrix’ também. Fez muito bem saber que tive a mesma caminhada de uma grande escritora americana.”
As histórias de vida dessas mulheres são parte de uma história coletiva das últimas décadas. Elas fizeram a revolução sexual e também a revolução demográfica. Nunca nasceram tantos bebês e nunca eles tiveram vida tão longa.
“Não existe até esse momento uma geração desse tamanho”, diz a demógrafa Ana de Mello Moreira, do Ipea, especialista em envelhecimento. “É também uma geração mais letrada do que a de suas mães, e, por isso, ao começarem a ocupar postos de trabalho, as mulheres fizeram uma revolução no mercado. E ainda foi nessa mesma geração que a virgindade perdeu importância e o laço eterno do casamento se dissolveu em múltiplos relacionamentos, com filhos de pais diversos ou sem nenhum filho. Na época, falávamos muito em onda jovem, hoje dizemos onda idosa. Eu chamo de ‘elderly boomers’, uma adaptação para os tempos atuais dos baby boomers, os nascidos no pós-guerra.”
No Censo de 2022, eram 17,9 milhões as mulheres com mais de 60 anos de idade, o início oficial da velhice no Brasil. Este número é 15 vezes maior do que o 1,3 milhão registrado em 1950. As mulheres também correspondem a 66% da população 80+, já que em média vivem sete anos mais do que os homens. “O mundo dos 80+ é um mundo de mulheres”, dizem os sociólogos americanos Lauren Carstensen e Monisha Pasupathi.
Lúcia Murat prepara-se para lançar ‘O sertão das nossas memórias’, um road movie sobre 3 sobreviventes dos anos de chumbo — Foto: Marco Capeluppi
Ao envelhecer, as desigualdades sociais ficam mais evidentes, é grande a diferença entre ser velho rico e ativo ou pobre e sem rede de proteção social. Os 60+ ativos são só 15% dessa faixa da população e entre os 75+ só 5,5% estão trabalhando. Não se trata de uma escolha existencial. As restrições no mercado de trabalho por conta da idade começam aos 50.
Ana Moreira adverte: o etarismo é o único preconceito socialmente aceito. “O racismo não é mais, nem a misoginia e a homofobia.” Pesquisa recente da ONU mostra que uma a cada duas pessoas não confia nos 60+.
“Um ataque muito comum nas redes é o de me chamar de ‘velha’ e dizer que eu devo morrer. Aí colocam meu rosto com as marcas do tempo. Como se isso me ofendesse. Alguém que viu uma arma pela frente e um militar dizendo ‘eu posso te matar’, e eu sabia que podia e que nada cairia sobre ele, se me matasse dentro do quartel. Ainda lembro dos olhos dele”, conta Míriam Leitão.
A ditadura marcou a vida dessa geração: elas eram as jovens estudantes ou as mulheres em início de carreira que encurtaram as saias e foram para as ruas protestar contra a reforma universitária, a censura, o governo militar e depois o AI-5, o ato institucional que acabava com as últimas amarras legais do regime.
Míriam foi uma delas. Tem orgulho da sua geração; foi ela que percebeu estar vivendo o final de uma era e saiu quebrando todos os tabus e barreiras. “Assim, criamos musculatura para a luta”, diz.
Nascida em Caratinga (MG), em uma família de 12 irmãos, com pai pastor presbiteriano, conservador e amoroso, Míriam vivia lendo, enfurnada no quarto. Foi estudar em Vitória, queria participar do debate de ideias e militar por elas, mas um ano depois estava presa e grávida.
“Precisava ser eficiente na luta contra o inimigo.” Passou para a faculdade e, por acaso, virou jornalista ao achar uma oferta de emprego nos classificados. “Fui torturada, saí muito machucada, ninguém sai inteiro. Ainda não tinha 20 anos e pesava 38 quilos. Devo minha recuperação à família.”
Na vida profissional, foi demitida cinco vezes. “Eu enfrentei demissão por razões políticas, enfrentei demissão por coisas mais veladas, por assédio moral, por ser mulher, por ser quem sou, então, não foi caminho fácil. E agora o etarismo, está sempre ali… A gente sempre teve ordens para não fazer o que a gente fez. Fizemos e deu certo”, reafirma.
Com a eleição para a ABL, Míriam ampliou os horizontes. Neste primeiro ano, chegou pisando o chão dos imortais devagarinho, como manda a música cantada por Dona Ivone Lara ao som da qual ela acordou no dia da disputa com Cristovam Buarque pela cadeira 7 da ABL: “Eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininha; alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”. “Depois de longa caminhada, estou onde queria estar, com pessoas que amam livros”, diz.
Zezé vivia sua primeira vez no teatro profissional, em “Roda viva”, a peça de Chico Buarque, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, rapidamente transformada em sucesso e marca de crítica à ditadura militar. Ela e os outros atores foram agredidos pelos militantes do Comando de Caça aos Comunistas, que, junto com policiais, invadiram o teatro, espancaram artistas e público e destruíram cenários.
“Eles assistiram à peça várias vezes para estudar os caminhos do teatro, por onde se ia para os camarins, enfim, onde os artistas se refugiavam. E nos atacaram com cacetetes, uma das artistas foi parar no hospital”, lembra Zezé. A peça continuou em cartaz, conta, com o apoio de estudantes progressistas na plateia preparados para enfrentar um eventual novo ataque do CCC. Mas, pouco depois, “Roda viva” foi proibida e o teatro, fechado.
Falávamos muito em onda jovem, hoje dizemos onda idosa. Eu chamo de ‘elderly boomers’”
— Ana de Mello Moreira
Na época em que Zezé encarnou uma hipersexualizada Xica da Silva no filme de Cacá Diegues de 1976, as insinuações na mídia eram de desconfiança sobre seu talento e beleza para interpretar a escravizada empoderada. “Quando eu dei certo na vida profissional, era uma época em que quase naturalizavam essa coisa de deitar no divã do diretor para lançar carreira. Desconfiavam de que algo tivesse acontecido para eu ganhar o papel disputado por outras 30 mulheres. Diziam que eu era feia, só tinha sensualidade, até as feministas me criticaram.”
Mas Xica da Silva foi um marco na carreira de Zezé e no cinema brasileiro. Depois desse sucesso, nunca mais apareceu nas telas servindo docinhos a convidados brancos e recusou papéis em que sua sensualidade era o destaque.
A memória da resistência à ditadura marca a obra cinematográfica de Lúcia Murat. Ainda estudante, foi militante da Dissidência da Guanabara (o antigo Partido Comunista Brasileiro) e depois do MR-8, Movimento Revolucionário 8 de Outubro. Passou à clandestinidade como guerrilheira e enfrentou três anos e meio de prisão.
Seu primeiro longa, “Que bom te ver viva” (1989), está na lista dos 100 filmes essenciais da Associação Brasileira de Críticos de Cinema: meio documentário, meio ficção, leva à tela relatos de ex-militantes e ex-guerrilheiras sobre as torturas sofridas nos porões da ditadura. Seu percurso nesse tempo de horrores é representado por Irene Ravache, personagem central do filme.
A sua história ajudou-a no início de carreira, não como aura, mas como modo de vida. “Depois de tudo, eu tinha uma condição muito grande de achar que sobreviveria em qualquer situação. E isso me dava uma força muito grande”, diz.
A primeira vez que entrou num set de filmagens só tinha homens na equipe, mas isso não a atrapalhou. “Eu era heroína”, diz com humor. Décadas depois, quando fez “Praça Paris” (2017), as mulheres dominavam tudo, inclusive a parte elétrica, tradicionalmente operada por homens.
“Fazer cinema era muito revolucionário, num certo sentido, já que a geração anterior era criada para casar, ter um emprego estável e criar um filho.”
Lúcia viveu inúmeras situações de falta de dinheiro e insegurança, tipo vender o carro para continuar a filmar, sem ter ideia se teria dinheiro no mês seguinte. Mas sempre tinha um projeto novo. Foi das primeiras cineastas a conseguir parcerias e apoios internacionais, especialmente na França e na Argentina. Retratou as utopias e derrotas da sua geração. O feminino atravessa quase sempre os seus filmes, e ela botou foco em personagens apagados e esquecidos da história oficial.
Seu longa mais recente, “Hora de recreio” (2025), comove com as histórias de violência familiar vivida e contadas, com olhos cheios de lágrimas, por jovens da periferia numa escola pública.
Lúcia reconhece o etarismo nos festivais de cinema e no olhar do mercado, mas já escapou dele. “Você tem nos festivais de cinema como um todo uma predileção por pessoas mais jovens. E, principalmente, o mercado todo do cinema está sempre à procura do novo gênio, da nova pessoa que vai apresentar alguma coisa diferente.”
Com uma carreira consolidada, homenageada por festivais ao redor do mundo, tem certeza de que tudo valeu a pena e vai continuar trabalhando sempre. “Conheci o mundo inteiro através do cinema, conheci pessoas fantásticas através do cinema, recebi muitos elogios, recebi muitos retornos de público e de crítica, o que faz bem, claro”, diz. Recentemente foi à Turquia para uma retrospectiva de seus filmes.
Iole de Freitas saiu do país nos anos de chumbo para viver em Milão, onde o meio artístico fervia. Casou-se com Antonio Dias, foi logo trabalhar como designer na Olivetti e aproximou-se da “body art”, em grandíssima parte formada por mulheres. Trazia como herança do Brasil os muitos anos de dança e o desenho industrial aprendido na segunda turma da Escola Superior de Desenho Industrial, a ESDI, então uma escola recém-criada no Rio.
“Podia continuar no balé, mas não queria. Podia investir no desenho industrial, mas também não quis. Tinha de juntar as duas linguagens.” Começou a fazer performances fechadas, no ateliê, que ela mesma filmava em super-8 ou em 16 milímetros. Ou inseria fotos repetidas nos filmes ou retirava fotografias dos filmes, ampliava e fazia sequências fotográficas. “Então foi nessa linguagem entrelaçada que comecei a trabalhar, sempre com o corpo presente, filmando a mim mesma.”
Antonio e ela foram conhecendo o mundo da arte e rapidamente seu trabalho chegou às galerias e museus. Poucos artistas atravessaram tantas mutações sem perder a coerência quanto Iole. Da fotografia experimental nos anos 70 em Milão às esculturas monumentais em aço e carbono, sua obra sempre perseguiu a mesma questão: como dar forma física ao movimento, ao tempo e à instabilidade.
No ateliê da Glória, Iole circula em meio a chapas e tubos das grandes instalações já criadas, dois operários dobram aço preparando uma peça. Lá também estão alguns dos seus mantos, trabalhos com areia sobre metal, exibidos pela primeira vez em tons de terra, na exposição “Os terras”, na galeria Silvia Cintra, no Rio. São peças que caem, dobram, suspendem-se no espaço como tecidos atravessados por ar.
Num livro de fotos, ela mostra “a sala da queda”, no Instituto Tomie Ohtake. “O nome da exposição, ‘Colapsada, em pé’, já prenunciava a queda”, comenta. A mostra era aberta com um manto gigante que ocupava todo o átrio do instituto e, em outra sala, exibia filmes e trabalhos dos nos 70, quando Iole ainda estava muito ligada à performance e à dança. Um deles acabara de ser feito: Iole e o neto improvisando uma coreografia linda, interrompida por uma queda que lhe custou 14 parafusos na coluna.
“As pessoas não notam, tinha avisado à minha filha Rara que, se caísse, não interrompesse o filme para não estragar o trabalho, mas parece que tudo é coreografia”, ri. Filme e queda têm tudo a ver com a ideia de corpo vulnerável, mas insistente, que atravessa a sua obra.
Os mantos de Iole já foram exibidos no Paço Imperial do Rio e agora são parte da exposição comemorativa dos 40 anos do museu. São muitos os projetos de Iole para o futuro, entre eles uma exposição na Casa Roberto Marinho em 2027. “Eu sou acelerada, não abro mão de convites que me oferecem, faço brilhar aquilo que me oferecem. Para quem tem 80 anos, não é suficiente fazer apenas uma coisa correta.”

