×

A intolerância, bailarina, mudou de lado outra vez – Meio

A intolerância, bailarina, mudou de lado outra vez – Meio

A intolerância, bailarina, mudou de lado outra vez – Meio

A intolerância, bailarina, mudou de lado mais uma vez – Meio

Há alguns anos, bastava observar o movimento das redes sociais para identificar, de forma relativamente clara, quem apontava o dedo para quem — e por qual motivo. Entre 2015 e 2018, a nova ala da política brasileira construiu uma forte estrutura de mobilização baseada na crítica moral à esquerda. Grupos como o MBL se destacaram por suas estratégias de denúncia online, utilizando dispositivos móveis e plataformas digitais para envolver, mobilizar e incentivar a participação de cidadãos indignados com as supostas práticas imorais da esquerda progressista, que, segundo eles, apoiava ou promovia pedofilia, sexualização de crianças, homossexualidade, destruição da família tradicional e “ideologia de gênero”. A narrativa visava mostrar ao brasileiro conservador como a esquerda não só era corrupta na gestão pública, mas também estava empenhada em corromper os valores morais, especialmente os das crianças, em todas as esferas em que atuava.

A política nas redes sociais foi estruturada nesse período como um tribunal moral constante, onde o oponente não era apenas alguém com ideias discordantes, mas alguém perigoso, que corrompia valores essenciais e, portanto, precisava ser contido.

A maior parte da essência da nova direita brasileira, assim como parte significativa de seu sucesso eleitoral posterior, decorreu dessa abordagem. Foi a combinação de denúncias contra a esquerda corrupta e os progressistas como corruptores morais que permitiu aos conservadores se aliarem à plataforma política da extrema direita, que desde então tem obtido sucesso em termos de apoio popular e mandatos.

A sequência de eventos é conhecida. A exposição Queermuseu foi encerrada sob acusações de promover perversões, incluindo incentivo à zoofilia e pedofilia; a performance de Wagner Schwartz no MAM foi transformada em evidência de decadência moral; o chamado “kit gay” se tornou peça central em uma narrativa eleitoral sobre as supostas intenções moralmente corruptas de um governo de esquerda em relação às crianças; Judith Butler foi transformada em símbolo de uma ameaça difusa, recebendo um alto nível de hostilidade, incluindo uma encenação grotesca de queima pública. Em todos esses casos, o mecanismo era semelhante: gerar indignação, mobilizar uma comunidade moral e legitimar a exclusão simbólica e, quando possível, institucional dos alvos. “Intolerância!”, ecoava-se.

O que mudou não foi o método, mas sim o foco. Atualmente, o que domina o espaço público são novas acusações, porém seguindo uma estrutura funcionalmente equivalente. As denúncias de pedofilia deram lugar ao racismo; a acusação de incentivo à homossexualidade e bissexualidade em crianças deu lugar à denúncia de misoginia como fomentadora do feminicídio; a crítica à “ideologia de gênero” nas escolas foi substituída pela acusação de transfobia contra aqueles que se recusam a adotar certas concepções de identidade. A linguagem mudou, os termos são outros, mas a lógica permanece a mesma: identificar desvios morais intoleráveis e, a partir deles, justificar a exclusão, discriminação, constrangimento e/ou punição.

À medida que os conflitos mudam, os grupos considerados inaceitáveis também mudam.

Essa mudança não é apenas superficial. Ela reflete uma transformação mais profunda na configuração das divisões políticas e nos alvos da intolerância. Estudos clássicos sobre tolerância política ajudam a esclarecer esse ponto. Eles demonstram consistentemente que a intolerância não é uma característica fixa de determinados grupos, mas uma disposição que varia dependendo dos alvos em questão. Conforme os conflitos mudam, os grupos considerados inaceitáveis também mudam — e, com isso, os padrões de tolerância e intolerância.

Por muito tempo, os principais alvos de restrição de direitos e exclusão simbólica estavam à esquerda do espectro político. Foi nesse campo que surgiram, a partir dos anos 1950, as principais pesquisas sobre autoritarismo e tolerância. O desafio teórico e empírico era claro: como explicar o apoio social a formas de repressão contra dissidentes políticos, minorias ideológicas e grupos considerados desviantes ou subversivos?

As primeiras abordagens, como os estudos sobre a personalidade autoritária, buscaram identificar as raízes do autoritarismo em características psicológicas relativamente estáveis, como rigidez cognitiva, submissão à autoridade e agressividade direcionada aos alvos designados pelo grupo ao qual se pertence. Paralelamente, outras correntes passaram a enfatizar fatores contextuais e sociais, examinando como percepções de ameaça, dinâmicas grupais e opiniões públicas poderiam ativar ou intensificar essas disposições. O autoritarismo deixou de ser apenas um traço individual para se tornar um fenômeno contextual, dependente de condições históricas e políticas específicas.

Nesse mesmo contexto, uma segunda linha de pesquisa se desenvolveu, focada na análise da tolerância política, geralmente examinada em contraposição: a disposição de negar direitos a grupos impopulares. Estudos empíricos investigaram até que ponto os cidadãos estariam dispostos a garantir liberdades civis — como expressão, associação e participação política — a atores que desaprovavam. O enfoque passou, assim, da adesão abstrata a princípios democráticos para a avaliação concreta desses princípios em situações de conflito. Essa literatura revelou um padrão recorrente: embora houvesse amplo apoio a normas gerais, havia forte resistência à sua aplicação quando os beneficiários eram vistos como ameaçadores. A tolerância, dessa forma, se mostrou menos um valor internalizado de forma consistente e mais uma disposição contingente, influenciada por percepções de risco, identidades políticas e avaliações morais dos alvos.

Essas duas abordagens convergiam para um propósito comum: criticar sistematicamente o autoritarismo e sustentar uma ética de vigilância democrática. A ideia fundamental era que a estabilidade de regimes livres dependia não apenas de instituições formais, mas também de uma cultura política capaz de conter impulsos de exclusão quando ativados por crises, medos ou mobilizações ideológicas. Daí a importância da educação, da diversificação de experiências sociais e da exposição a perspectivas diversas como antídotos contra tendências autoritárias. Simultaneamente, fortaleceu-se a defesa da tolerância, da liberdade de expressão e dos direitos civis como princípios fundamentais da ordem democrática, cuja preservação deveria ser constantemente monitorada.

Esse compromisso não era apenas normativo, mas também respondia a um contexto concreto de conflito, no qual os grupos que mais fortemente defendiam esses princípios eram, eles mesmos, os mais vulneráveis à sua violação — e estavam à esquerda.

A defesa da tolerância operava, assim, como uma estratégia de proteção para a esquerda liberal em um ambiente percebido como hostil. Isso explica por que a linguagem da tolerância se enraizou tão profundamente nesse segmento político: ela não refletia apenas uma visão de mundo, mas uma necessidade real de sobrevivência.

O ponto crítico, diante das mudanças recentes, é que, ao alterar as posições relativas nos conflitos entre progressistas e conservadores, essa mesma linguagem protetiva pode perder sua eficácia e, em alguns casos, ser substituída por uma postura oposta — em que a contenção do outro é vista não como uma ameaça à democracia, mas como uma condição para sua preservação.

O que se observa hoje, em diversos contextos, é que setores progressistas têm assumido cada vez mais o papel de acusadores morais — na mídia, nas universidades, nas escolas, no Ministério Público, no Judiciário, nas plataformas digitais e nas ruas. Não se trata apenas de denunciar práticas discriminatórias, o que é parte legítima do debate democrático, mas de redefinir certos comportamentos, opiniões ou posições como intrinsecamente intoleráveis. Uma vez estabelecida essa classificação, abre-se espaço para justificar diversas formas de punição: exclusão social, cancelamento, restrições legais, constrangimento público e, em última análise, discriminação.

O recente episódio de um bar no Rio de Janeiro, que anunciou não atender cidadãos de determinados países e foi amplamente apoiado por setores progressistas, ilustra não apenas uma prática discriminatória, mas também a sua defesa, financiamento e legitimação como gesto de afirmação moral. O ponto crucial não é o caso em si, mas o fato de ter encontrado apoio em uma comunidade moral disposta a validá-lo.

Isso nos leva a uma conclusão incômoda, porém difícil de ignorar: a tolerância, longe de ser um atributo estável de identidades políticas, parece depender das posições relativas em conflito. Quando um grupo se percebe como vulnerável, tende a valorizar a tolerância como proteção; quando se vê como guardião de valores ameaçados, pode passar a encarar a intolerância como um dever.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que a mudança nos alvos de acusação moral coincide com uma mudança nas práticas de exclusão. A alteração na linguagem — de “pedofilia” para “racismo”, de “ideologia de gênero” para “transfobia” — não é apenas uma questão semântica. Ela redefine o que é aceitável e inaceitável, quem pode ser legitimamente constrangido e estabelece novos limites para a convivência pública.

Estudos sobre tolerância também indicam outro ponto relevante: em sociedades pluralistas, a intolerância tende a se dispersar entre vários alvos, o que dificulta a formação de maiorias coesas dispostas a perseguir um único grupo. Esse mecanismo pode funcionar como uma espécie de contenção difusa, mas não resolve o problema; apenas o redistribui. A intolerância continua presente, porém fragmentada — cada segmento com seu inimigo preferencial.

O perigo surge quando essa fragmentação se combina com intensidade elevada e forte coesão interna. Nessas condições, mesmo sem consenso geral na sociedade, grupos suficientemente organizados podem manter práticas consistentes de exclusão em seus próprios círculos. E se essas práticas forem recompensadas — seja materialmente, seja em termos de reconhecimento —, o estímulo para sua repetição aumenta.

O que antes era denunciado como autoritarismo agora é reinterpretado como proteção de valores.

Nesse ponto, a mudança de foco se torna evidente. O que antes era rotulado como autoritarismo agora é justificado como proteção de valores; o que antes era criticado como censura passa a ser defendido como responsabilidade; o que antes era considerado intolerância é apresentado como exigência moral. A linha entre a defesa de princípios e a justificação da discriminação e exclusão se torna cada vez mais tênue.

Nada disso significa ignorar conflitos reais ou relativizar práticas discriminatórias que demandam resposta. Entretanto, é crucial reconhecer que a lógica da intolerância não está restrita a um único lado do espectro político. Ela emerge sempre que um grupo decide que certos oponentes não devem apenas ser refutados, mas também excluídos do espaço legítimo de participação.

Se há uma lição a ser aprendida com essa mudança na dinâmica da intolerância e do autoritarismo, talvez seja esta: a tolerância não pode ser vista como um atributo estático de identidade — “nós somos os tolerantes” —, mas sim como uma prática constantemente desafiada pelas circunstâncias. Quando grupos se percebem como social e politicamente frágeis, buscam a proteção da tolerância, da promoção do pluralismo, da rejeição do autoritarismo; quando essa percepção muda, mesmo que de maneira equivocada, a contenção do autoritarismo e o valor da tolerância se tornam dispensáveis.

Estamos presenciando o momento histórico em que essa mudança de percepção está ocorrendo dentro do campo progressista. O que antes era um valor agora é um obstáculo; a prioridade deixa de ser a própria sobrevivência para se tornar a neutralização do “outro lado”. Tolerância é para os fracos; o debate é para aqueles que não podem se manter firmes sem a validação de um grupo. E a democracia? Bem, que se defenda sozinha.

*Wilson Gomes é doutor em filosofia, professor titular da Universidade Federal da Bahia e autor de “Crônica de uma Tragédia Anunciada”.

Créditos