A direita não é bolsonarista – Meio
Você é um candidato forte, com chances reais de chegar à presidência da República. Vai fazer a convenção nacional do seu partido, a grande festa em que seu rosto aparecerá numa tela gigante, todo mundo vai brandir bandeiras com seu nome. Gritarão por você. Disputarão o espaço para aparecer numa foto contigo. Tem uma coisa, em política, que todo mundo sabe. Perante a perspectiva de poder, todo mundo gruda, todo mundo puxa o saco, todo mundo quer um pedaço.
Então por que nada disso aconteceu no sábado, quando o PL se reuniu para sagrar Flávio Bolsonaro seu candidato à presidência?
Pois é, eu sei o que você leu. Leu sobre o presidente argentino Javier Milei xingando o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes, durante o evento. Leu que o vídeo feito com inteligência artificial do ex-presidente Jair Bolsonaro pode ou não violar as regras da Justiça. Mas nada disso foi o que de mais importante aconteceu na convenção do PL.
Um pedaço do público, um pedaço razoável, se levantou e foi embora exatamente no momento em que Flávio começou a discursar. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, não apareceu. O irmão do candidato, Carlos Bolsonaro, que deve sair ao Senado por Santa Catarina, não apareceu. A maior estrela do PL neste momento, que periga ser o deputado mais votado do país pela segunda vez, o maior político das redes sociais brasileiras, Nikolas Ferreira, não apareceu. E, olha, até dois dias antes não estava certo nem que o governador paulista Tarcisio de Freitas estivesse presente. Tiveram de correr atrás pra negociar na última hora. Flávio está sem vice. Ninguém quer. O desespero é tão grande que estão pensando no astronauta, Marcos Pontes, para a posição. Porque ninguém mais quer. União Brasil e Progressistas, os outros partidos grandes da direita brasileira? Pularam fora. Não vão apoiá-lo. Agora a turma do PL está na batalha por uma aliança com o Republicanos. Talvez saia, mas o mais provável é que não.
Convenção de partido é o único momento em que o mundo político vota com o corpo. No sábado, a elite da direita brasileira respondeu — e respondeu com os pés. As ausências não são desfeita, são cálculo. O que Nikolas, Carlos, Michelle, União, Progressistas e Republicanos fizeram foi conta. Pura aritmética. Olharam as pesquisas, levaram em conta tudo o que saiu na imprensa, juntaram a isso tudo o que sabem mas nós não sabemos e chegaram, todos, à mesma conclusão. Melhor não. O risco de aparecer ao lado de Flávio lá em cima do palco é maior do que sumir.
Veja, a maledicência que os adversários de Flávio Bolsonaro na direita espalham é a seguinte: aquele pessoal que saiu do Pacaembu enquanto o próprio Flávio estava discursando? Era claque paga. Gente que foi contratada para ficar até uma hora, bateu a hora quando ele estava falando, pronto, bastou, isso aí, pulou fora. Não importa se é verdade ou não. Sabe por quê? Se for verdade, isso quer dizer que Flávio não anima qualquer militância. Aquele bolsonarismo do povo enchendo a avenida Paulista gritando mito? Sumiu do mapa, não existe mais. Não estava lá gritando mitinho pro Zero Um. Se foi claque paga, é porque não motivou qualquer militante. Se eram militantes de verdade, bem, aí quer dizer que foram embora entediados pelo discurso do candidato.
Mas, então, o que está havendo? As pesquisas, incluindo a nossa, aqui, a Meio/Ideia, não estão dizendo que Flávio deve disputar o segundo turno com Lula? Então o que acontece? Se você ouve como esta eleição é interpretada no flanco esquerdo da disputa, concluirá o seguinte: toda a direita é bolsonarista. Só que, aí, tem de olhar para o mundo como ele é.
Quando Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Romeu Zema estão em cima do trio elétrico aplaudindo Jair Bolsonaro, rodeados de toda sorte de deputados incluindo Nikolas e tantos outros, com tudo quanto é presidente de partido de direita, um monte de pastores evangélicos, e a família Bolsonaro completa, o que você conclui? Olha, toda a direita é bolsonarista. Conclusão mais que razoável. Aí, lá assistindo o discurso, uma multidão gritando mito. É a prova social. Gente, político não é um bicho complicado de entender. Em eleição, procura voto. Onde tem voto, lá está o político.
Mas, então: quando rigorosamente todo nome relevante da direita foge do mitinho, aí temos de concluir o quê? De novo. Nem a família Bolsonaro estava no palanque que lançou Flávio à presidência. Não estava Michelle, não estava Carlos. Eduardo, claro, não pode. Mas ninguém? Tarcísio não queria ir, chegou a anunciar que ia estar na convenção do PSD, com Kassab e Caiado. Aí, na última hora, pulou fora. As pessoas não gritaram mitinho, o que elas fizeram foi ir embora. De novo, a gente precisa perguntar: o que está acontecendo? Quando os fatos mudam, não temos de mudar a conclusão? Será que toda a direita brasileira é mesmo bolsonarista?
Eu sou Pedro Doria, editor do Meio.
Você acabou de ouvir por que a direita inteira sumiu do palanque do próprio candidato. Só que isso não começou sábado. Vem de muito antes, e tem explicação.
Nos últimos cinco dias a gente deixou um filme aberto no YouTube. Se chama Os Partidos. Sabe, com frequência vocês veem desencontros aqui. Debate, às vezes debates duros. Gente que critica. Mas, após pouco mais de uma hora assistindo aberto, no YouTube, o episódio, a caixa de comentários era uma paz só. E vocês escreveram muito. Teve gente dizendo que se emocionou. Teve gente dizendo que é o episódio que qualquer um que se importa com este país precisa ver. E teve uma pergunta que apareceu de novo e de novo: dá pra abrir o primeiro também, aquele sobre o povo brasileiro?
Não dá. Mas ele está lá.
Porque Os Partidos é um de cinco. O Ponto de Partida, a série, mergulha fundo em cada tema que aborda. Como funcionam os algoritmos das redes sociais, por exemplo. Ou quem é esse povo que vota, como se armaram os partidos que deveriam representá-lo, e por que essa conta nunca fechou. Quem viu um entendeu um pedaço. O conjunto explica a eleição que você vai assistir daqui até outubro.
Estão todos no streaming do Meio. Assine o Meio Premium — são quinze reais.
E este aqui? Este é o Ponto de Partida.
A direita brasileira não é bolsonarista. Ela é antipetista. E essas duas coisas não são a mesma coisa. Como antipetista, foi tucana por um tempo, aí passou a bolsonarista e seja nesta eleição, seja na próxima, deve pegar a onda seguinte. Se radical ou moderada, o tempo dirá. Hoje, as pesquisas dizem que os eleitores buscam estabilidade.
Mas, sim, durante uns seis anos a direita pareceu ser bolsonarista. Porque enquanto Jair Bolsonaro estava no jogo, o veículo e o destino eram a mesma coisa. Quem queria tirar o PT do poder subia no carro dele — não por amor ao motorista, mas porque era o carro que estava andando. Aí o pai saiu de cena e entrou o filho. E ficou visível o que sempre esteve ali: muita gente naquele carro não estava pelo motorista. Estava pelo destino.
Olha, isso não é intuição minha. Hoje, num almoço em São Paulo, os chefes de vários institutos de pesquisa sentaram na mesma sala. E disseram, um atrás do outro, versões da mesma coisa. Felipe Nunes, da Quaest, colocou nestes termos: a direita está desanimada com a candidatura do Flávio, mas continua rejeitando fortemente o PT. Desanimada com ele. Firme contra o outro. É uma energia enorme sem carro para andar.
Andrei Roman, que dirige a AtlasIntel, foi mais longe e disse o nome. Se aparecer uma reorganização da direita em torno de alguém mais forte que Flávio — alguém sem o desgaste do Banco Master, que consiga falar de corrupção e de crime sem que rebata em cima dele mesmo —, quem mais se beneficia é Ronaldo Caiado. E Roman fez questão de marcar a diferença: terceira via como candidatura pragmática de centro, disse ele, não tem a menor chance neste país polarizado. Mas terceira via como reorganização da direita? Essa está em aberto.
Não é que apareceu um centro. É que a direita pode trocar de carro. Foi exatamente o que eu falei no Ponto de Partida da semana passada, lembra? Eu estava lendo a nossa Meio/Ideia de três semanas atrás. Mas pega números de hoje, da Nexus. No primeiro turno, nada mudou. Flávio tem 33%, muito à frente dos outros nomes da direita — Caiado tem 6, Renan Santos 5, Zema 3. Lula, 42. Se você olhar só isso, está tudo como estava.
Agora olha o segundo turno. Lula contra Flávio: 47 a 43. Lula contra Zema: 46 a 42. Lula contra Renan Santos: 47 a 39. E Lula contra Caiado: 45 a 43. Dois pontos de diferença.
Agora junta com o resto do quadro. O Datafolha mediu que 37% dos eleitores não sabem dizer, espontaneamente, o nome de um candidato. Em 2022, nesta altura, eram 25%. E entre as mulheres é quase metade: 45% não têm nome na cabeça. Lembra do que eu falei aqui na quarta? Que Flávio já tinha perdido cinco pontos e que os cinco tinham saído todos do eleitorado feminino? Pois é. Aquilo não virou voto em outra pessoa. Virou vaga aberta. Tem quase metade das mulheres brasileiras sem candidato a três meses da eleição. Isso não é apatia. Isso é espaço.
E tem a parte que ainda não aconteceu. Tem dois vídeos rolando nos bastidores. Vídeos dos quais todo mundo fala mas ninguém mostra. Um vídeo é de uma orgia de Vorcaro e nela aparece um político importante. Noutro não tem sexo, o que tem é um político aos agarros, beijos e abraços, com uma mulher conhecida. Que não é a sua mulher. Todo mundo que fala desses vídeos acha que o político nelas é o mesmo. E está todo mundo achando que pelo menos um deles vai circular até aquele primeiro domingo de outubro. O que o eleitor conservador vai achar? Eu não sei. Mas sei o que os líderes de direita estão demonstrando.
Segundo o Roman, os escândalos que atingem Flávio ainda estão restritos à parcela mais bem informada do eleitorado. Ou seja: o estrago já existe, mas ainda não chegou na maioria.
Entendeu o que aconteceu no Pacaembu no sábado? A elite política faz cálculo. Nikolas, Carlos, Michelle, os presidentes do União e do Progressistas, todos leram o que ainda não circulou, fizeram a conta do que vem por aí e concluíram que não valia a pena estar naquela foto. A convenção foi um vazamento antecipado. Foi o mundo político mostrando, com o corpo, o que a pesquisa ainda não mostrou.
Enquanto isso não se resolve, quem ganha é Lula. O modelo da Quaest estimava, no começo do ano, 38% de probabilidade de reeleição dele. Hoje estima quase 60%. Sessenta. Não foi porque o governo ficou bom — a aprovação subiu de 43% para 47%, é melhora modesta. Subiu porque do outro lado tem um candidato que a própria turma não quer segurar. Cada semana que a oposição gasta fingindo que está tudo bem com Flávio é uma semana que ela entrega de presente.
Então volta pra pergunta do começo. Por que ninguém subiu no palanque?
Porque não é palanque. Palanque é onde o político vai buscar voto. Aquilo lá, no sábado, era uma sala de espera. Um monte de gente relevante da direita brasileira sentada, olhando pro relógio, esperando o que todo mundo naquele meio já sabe que vem.
Hoje, o que temos é o seguinte. A direita abandonou Flávio, mas o eleitor de direita dá a ele vantagem. Não é vantagem que lhe garanta a eleição, mas é vantagem que tira todos os outros do páreo. No Palácio do Planalto, o presidente Lula abre um sorriso dum canto ao outro do rosto. E segue jogando parado.


