Novo livro de Julia Kumpera recupera memória e bastidores do levante lésbico no Ferro’s Bar em 1983
Na noite de 19 de agosto de 1983, ativistas lésbicas ocuparam o Ferro’s Bar, no centro de São Paulo, depois de serem impedidas de distribuir o boletim ChanacomChana e de frequentar o estabelecimento. Mais de quatro décadas depois, a mobilização permanece como um marco da luta por direitos e uma referência para novas gerações de mulheres lésbicas.
A história é recuperada pela pesquisadora e historiadora Julia Kumpera no livro “Na noite lésbica: o Levante do Ferro’s Bar”, lançado pela Autêntica. A obra abre a coleção “Nossas Histórias”, coordenada por Renan Quinalha e dedicada a marcos, símbolos e lugares importantes da resistência LGBTQIA+ no país.
Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, realizada na semana do Dia Nacional do Orgulho Lésbico, Kumpera afirmou que o episódio continua oferecendo referências para as lutas do presente. “O Levante ensina que é necessário lutar pelos nossos espaços, reivindicar o nosso direito de manifestação política, de expressar nossas ideias e de circular. Às vezes isso parece algo muito simples, mas não é”, disse.
Publicado em maio, o livro tem 152 páginas e nasceu de uma lacuna identificada pela autora desde o mestrado. Embora o Ferro’s Bar, o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) e o Levante aparecessem em obras mais amplas, ela não encontrava um estudo centrado no bar e em sua relação com as transformações do centro paulistano.
“Eu sentia que existia a necessidade de um trabalho mais aprofundado sobre a história do Ferro’s e do Levante.”, explicou. O convite da editora permitiu transformar a pesquisa em um livro voltado não apenas ao conflito de 1983, mas também à vida que existia naquele espaço.
Um respiro
Entre as décadas de 1970 e 1980, o Ferro’s se tornou um dos principais pontos de encontro de mulheres lésbicas em São Paulo. Localizado em uma região frequentada por artistas, militantes de esquerda e outras identidades da população LGBTQIA+, o estabelecimento fazia parte de um circuito alternativo e boêmio da cidade.
“O Ferro’s era um respiro para essas mulheres. Era um espaço onde era possível conviver com outras lésbicas, fosse para encontrar amigas, socializar ou paquerar”, contou Kumpera.
A historiadora ressaltou, porém, que o local não era um bar lésbico nos termos atuais. Foi ocupado por essa população, mas seus proprietários não necessariamente acolhiam a clientela. A permanência das mulheres era atravessada por tensões e por episódios de hostilidade praticados pelos donos e seus seguranças.
“Eles aceitavam o público porque isso mantinha o bar. Era um espaço possível, mas isso não significa que fosse completamente confortável”, afirmou.
O preço acessível da comida e da bebida e a localização central contribuíam para reunir frequentadoras de diferentes classes, idades e territórios. Havia jovens que acabavam de completar 18 anos — e até menores de idade —, mulheres de 40 e 50 anos e visitantes do ABC paulista, de Campinas e de outras cidades do interior.
A memória visual disponível sugere, segundo a pesquisadora, uma presença majoritariamente branca, embora mulheres negras também frequentassem o local. Para ela, a diferença deve ser lida à luz da desigualdade racial e econômica.
O bar também reunia diferentes expressões lésbicas da época, então identificadas principalmente em torno das “fanchas” e das mulheres mais femininas.
“Na noite lésbica: o Levante do Ferro’s Bar” abre a coleção “Nossas Histórias” e reúne depoimentos, documentos, reportagens e produções culturais. | Crédito: Divulgação
A gota d’água
O conflito que levou ao Levante começou quando integrantes do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) foram proibidas de circular pelo bar e vender o ChanacomChana, publicação produzida pelo coletivo. Depois, elas também foram impedidas de entrar no estabelecimento. A resposta foi organizar uma manifestação para retomar o espaço e defender o direito de distribuir o boletim.
Segundo Kumpera, a proibição foi o disparador de uma revolta alimentada por sucessivas hostilidades. O contexto também era marcado por batidas policiais que buscavam “limpar” ou “moralizar” o centro de São Paulo. Pessoas em situação de rua, prostitutas e trabalhadores sem carteira assinada, enquadrados pela figura jurídica da vadiagem, estavam entre os alvos.
“Invadir o bar para reivindicar que se podia permanecer naquele espaço era também enfrentar essa situação de alguma maneira, ainda que não tenha havido um enfrentamento com a polícia no dia do Levante”, avaliou.
Ao mesmo tempo, o Ferro’s deixava de ser somente um lugar de encontro e passava a ser disputado como território de militância. As ativistas iam ao bar depois de reuniões, divulgavam o grupo e faziam o boletim circular entre mulheres que nem sempre tinham contato com outras organizações políticas.
A mobilização ocorreu durante a abertura política e o processo de redemocratização, quando movimentos sociais voltavam a ocupar as ruas. O ambiente encorajou assim as mulheres a transformar a proibição em uma ação coletiva e pública.
História em colagem
Reconstruir uma noite ocorrida há mais de quatro décadas exigiu articular depoimentos, reportagens, fotografias, músicas, documentos da censura e trechos do próprio ChanacomChana. Kumpera descreve o método como uma colagem capaz de aproximar pontos de vista distintos sem esconder as lacunas dos arquivos.
“No geral, temos dificuldade de encontrar narrativas sobre lésbicas feitas por lésbicas. Isso é, de fato, uma lacuna”, afirmou.
A história oral ocupa um lugar central no livro. Além das entrevistas realizadas pela própria autora, a pesquisa recorreu a acervos como a coleção “Memórias à Margem”, do Memorial da Resistência de São Paulo, para a qual Kumpera também contribuiu.
“É urgente constituir um acervo de história oral de mulheres lésbicas, aproveitar que essas mulheres ainda estão vivas e querem falar sobre isso. É preciso que a sociedade pergunte a elas o que têm a dizer”, defendeu.
A combinação de fontes também ajuda a compreender por que algumas mulheres daquele período evitavam a palavra “lésbica” e se apresentavam como “entendidas”, por exemplo. Em vez de reduzir essa escolha a uma recusa individual, a autora investiga o que a imprensa, a medicina e a psicologia diziam sobre essas mulheres e como esses discursos interferiam em suas formas de identificação.
Memória apagada
Apesar da importância histórica, não há hoje no endereço onde funcionou o Ferro’s Bar uma placa que identifique o local. Segundo Kumpera, a ausência é ainda mais grave porque a Comissão Nacional da Verdade reconheceu o estabelecimento como espaço de memória lésbica, alvo de batidas policiais e também cenário de resistência.
“Quando não temos sequer uma sinalização, esse espaço é apagado da paisagem urbana. Isso reforça a ideia de que as lésbicas não contribuem para a cidade e não fazem parte dela”, criticou.
Para a historiadora, monumentos, placas, nomes de ruas, praças, edifícios, museus e arquivos são instrumentos de reconhecimento. A falta dessas marcas contribui para ocultar a participação de mulheres lésbicas e da população LGBTQIA+ na construção da cidadania e na ampliação de direitos no Brasil.
“O movimento lésbico e o movimento LGBT tensionaram uma série de limitações da cidadania no Brasil e contribuíram para sua ampliação nos últimos 40 anos. Essa recusa em ver a contribuição das pessoas, dos coletivos e dos movimentos é uma insistência em não reconhecer essas contribuições”, afirmou.
Em 19 de agosto de 1983, ativistas ocuparam o Ferro’s Bar após serem impedidas de distribuir o boletim ChanacomChana; a data deu origem ao Dia Nacional do Orgulho Lésbico. | Crédito: Divulgação
Luta presente
O direito de ocupar a cidade, central na mobilização de 1983, continua atual. Kumpera lembra que espaços públicos e privados ainda podem ser hostis às mulheres lésbicas e cita os assassinatos motivados por lesbofobia e ódio como expressão extrema dessa violência.
O legado do Levante, segundo ela, está também na defesa da produção cultural. O ChanacomChana não era apenas o motivo imediato do conflito: ajudava a criar comunidade, representatividade e outras narrativas sobre a existência lésbica.
“A gente tem que defender as nossas produções culturais. Elas são muito importantes para criar comunidade, construir outros imaginários e outras narrativas sobre nós, mulheres lésbicas”, disse.
Para as novas gerações, a história oferece um ponto de apoio para avaliar o que permanece, o que mudou e quais estratégias ainda podem inspirar o presente.
“O Levante fica como referência para pensar que essas lutas não começaram hoje. Podemos olhar e dizer: ‘Veja o que essas mulheres fizeram, como se mobilizaram, o que disso serve para nós hoje e o que não serve?’ Assim, podemos nos sentir parte de uma história coletiva mais ampla”, afirmou.
É nessa dimensão coletiva que Kumpera encontra a síntese do episódio e da memória recuperada pelo livro. “Eu existo porque outras existem e também me tornam possível existir. O Levante deixa essa história coletiva para a gente, em que podemos nos reconhecer e com a qual podemos nos vincular — como motivo de orgulho, inspiração, revolta e ocupação dos espaços.”


