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‘Presídios federais expandem facções’, diz Beira-Mar em série

‘Presídios federais expandem facções’, diz Beira-Mar em série

‘Presídios federais expandem facções’, diz Beira-Mar em série

Fernandinho Beira-Mar, considerado um dos maiores narcotraficantes da América Latina e líder do Comando Vermelho, afirma que os presídios federais são os responsáveis pela expansão do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) por todo o País. Preso e condenado a mais de 300 anos, Beira-Mar concedeu uma entrevista exclusiva para a nova série documental do Globoplay, “Territórios – Sob o Domínio do Crime”, que estreou nesta quinta-feira, 30.

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O que aconteceu

  • Fernandinho Beira-Mar atribui aos presídios federais a expansão das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) por todo o Brasil.
  • A declaração foi feita em uma entrevista exclusiva para a série documental do Globoplay, “Territórios – Sob o Domínio do Crime”, onde o traficante detalha sua visão sobre o sistema prisional.
  • A série, com seis episódios, explora a influência das facções na economia e política, além de abordar temas como a corrida armamentista e a Operação Contenção no Rio de Janeiro.

A série documental de seis episódios da Globoplay buscou ir além dos clichês para aprofundar o debate sobre o avanço das facções criminosas e os crescentes desafios da segurança pública no Brasil. A produção evita maniqueísmos e se propõe a analisar o tema com a complexidade necessária.

Os dois primeiros episódios exibidos à imprensa indicam que o ambicioso objetivo foi alcançado. O documentário, resultado de mais de um ano de trabalho jornalístico, com centenas de entrevistas, relatos exclusivos e imagens inéditas, demonstra como organizações como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital passaram a influenciar estruturalmente a economia e a política nacional através do domínio territorial.

Como a série aborda o domínio do crime?

“Foi um esforço gigante”, afirmou Fátima Baptista, produtora executiva da série e gerente de Inovação e Projetos Especiais da Globo. Ela ressalta a intenção de transcender as visões simplistas de “bandido bom é bandido morto” ou “vítima da sociedade”, buscando múltiplos pontos de vista.

O primeiro episódio é dedicado à Operação Contenção, conduzida em outubro do ano passado pelas polícias Civil e Militar nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. A ação, considerada a mais letal da história do estado, resultou em 122 mortes, incluindo cinco policiais. A imagem impactante de corpos enfileirados na entrada das comunidades ganhou repercussão internacional.

Operação contenção: um festival de improviso?

A série reconstrói a Operação Contenção, que teve início na madrugada de uma terça-feira, 28 de outubro de 2025, e durou mais de 24 horas. Imagens inéditas revelam policiais deixando os quartéis e adentrando as comunidades, muitas vezes sem a percepção da resistência que enfrentariam ou de uma estratégia clara de ocupação e combate. Um dos agentes entrevistados sintetiza: “Foi um festival de improviso e amadorismo”.

Fátima Baptista explicou que, como a equipe já trabalhava na produção da série na época, foi possível negociar com as autoridades policiais o uso de imagens de câmeras corporais e equipamentos de blindados. “Além disso, contamos também com imagens produzidas por jornalistas freelancers que acompanharam a operação”, disse Fátima. Segundo a produtora, “as imagens falam por si”.

O terceiro episódio foca no sistema prisional, apontado como berço e sustento do Comando Vermelho e do PCC. É neste segmento que a entrevista inédita com Fernandinho Beira-Mar é apresentada. A gravação foi feita no Presídio Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde o traficante cumpria parte de sua pena, que totaliza mais de 300 anos. Atualmente, ele está em Catanduvas, no Paraná.

Presídios federais impulsionam o crime organizado?

Na entrevista, Beira-Mar reitera que a expansão do CV e do PCC para outros estados brasileiros ocorreu devido à criação dos presídios federais. Ele descreve as prisões como “fábricas de fazer maluco”, onde os detentos passam “23 horas por dia em um cubículo, olhando para a parede”.

Apesar das condições de isolamento, o líder criminoso assegura que o convívio entre lideranças do crime organizado de diferentes regiões, reunidas nesses presídios, foi o catalisador para a proliferação das facções por todo o território nacional.

“O documentário se propõe a promover um amplo debate sobre segurança pública”, reafirmou Fátima. Ela enfatiza a importância de ouvir todos os envolvidos para compreender a complexidade do cenário atual de insegurança. “Fernandinho Beira-Mar, por exemplo, fez parte tanto da construção do crime organizado no País quanto da atual situação que vivemos”, complementou.

Os novos tentáculos do crime organizado

Os demais episódios da série aprofundam outros aspectos. O segundo aborda a corrida armamentista e o papel dos fuzis na dominação territorial e na intensificação da violência urbana. O quarto episódio explora como o crime organizado ultrapassou fronteiras, infiltrando-se em terras indígenas e na economia legal.

O surgimento das milícias e a transformação do controle territorial em um negócio lucrativo são o foco do quinto episódio. Por fim, o sexto e último trata das intrincadas relações entre o crime e a política no Brasil.

“As facções vivem um novo momento no Brasil. A droga não é mais a única fonte de renda delas”, observou Marcio Sternick, produtor executivo da série e diretor de Jornalismo da Globo no Rio de Janeiro. “É o controle de territórios que tem garantido a esses grupos um poder sem precedentes, a ponto de representar uma ameaça real à soberania do próprio Estado”, concluiu.

Serviço

A série documental “Territórios – Sob o Domínio do Crime” é dirigida por Gustavo Gomes, que também coassina o roteiro com Antonia Martinho. A reportagem é de Paulo Renato Soares, Leslie Leitão e Mahomed Saigg, com direção de fotografia de Lucas Louis. A produção executiva é de Marcio Sternick, Fátima Baptista e Clarissa Cavalcanti. Os seis episódios estão integralmente disponíveis na plataforma de streaming.

Créditos