Leilão estruturante de gás do Brasil pode funcionar como teste de compromisso por gás argentino
PIPELINE. Governo brasileiro sinaliza leilão estruturante de gás para 2027 e que pode ajudar a casar os primeiros contratos firmes de longo prazo para integração com Argentina.
Transportadoras judicializam uso do RCM na revisão tarifária. A cobertura do ONS 2026 na Noruega com entrevistas exclusivas com o diretor da ANP, Pietro Mendes, e com o VP da Equinor, Philippe Mathieu, sobre a agenda regulatória do gás no Brasil e mais. Confira:
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Enquanto Brasil e Argentina ainda esbarram em desafios para destravar a agenda de integração no gás natural, os produtores das mega reservas de gás não-convencional de Vaca Muerta se preparam para começar a exportar GNL firme para a Europa a partir do ano que vem.
O ano de 2027, no entanto, desponta como um teste para medir a real disposição dos players brasileiros e argentinos por contratos de longo prazo e fazer, assim, escalar a integração gasífera no Cone Sul em direção a compromissos firmes.
- O governo brasileiro tem a intenção de realizar, em 2027, o primeiro leilão estruturante de gás do país – uma política originalmente concebida para ofertar os volumes que pertencem à União Federal, oriundos dos campos do pré-sal contratados sob regime de partilha, mas que foi ampliada para reunir moléculas de outros vendedores (incluindo gás importado).
A ideia é que o gás da União seja usado como âncora, portanto, de um leilão mais amplo, na tentativa de casar oferta e demanda em contratos de suprimento de longo prazo.
É justamente um dos fatores que faltam para destravar os investimentos em infraestrutura para que a Argentina consiga exportar volumes firmes ao Brasil e outras praças, como o Chile. (Veja as principais diretrizes do leilão)
Em entrevista ao podcast gas week, que vai ao ar na próxima quarta-feira (2/9), o diretor do Departamento de Gás Natural do Ministério de Minas e Energia (MME), Marcello Weydt, reforçou que o leilão estruturante está sendo desenhado de forma integrada a outras políticas setoriais – o que inclui a pauta da integração regional.
“Esse leilão vai ser um grande teste de sinal econômico para viabilizar também as infraestruturas, para monetizar gás natural nacional, e também uma oportunidade de viabilizar investimentos na Argentina, caso a oferta de preço de gás natural no Brasil seja competitiva a ponto de viabilizar o consumo e aportar os investimentos necessários na Argentina”, comentou Weydt.
A gas week vem cobrindo, sistematicamente, os desdobramentos da agenda de integração gasífera no Cone Sul desde 2023 e preparou uma reportagem especial sobre os novos capítulos (e também os passados) dessa história que, entre avanços e retrocessos, completará 60 anos em 2027.
Argentina mira rotas mais rápidas para escoar gás
A exportação de gás argentino para os vizinhos Brasil e Chile, via gasodutos, já é uma realidade, mas ainda esbarra em entraves para ganhar escala – e, sobretudo, se converter de oportunidades sazonais de curto prazo, nas janelas de excedentes de verão, para compromissos firmes e de longo prazo.
Enquanto isso, diante da necessidade de arranjar um destino para o gás associado ao petróleo de Vaca Muerta, os produtores argentinos vêm buscando alternativas de monetização.
Um passo recente, nessa direção, foi a decisão da Pampa Energía de investir US$ 2,7 bilhões numa fábrica de fertilizantes em Bahía Blanca, na Argentina, e que mira o Brasil como mercado.
Com o aquecimento da demanda global por GNL após a eclosão das guerras Rússia-Ucrânia, em 2022, e sobretudo EUA-Irã, em 2026, a opção de exportar gás via GNL também passou a amadurecer entre os produtores argentinos.
Autoridades do governo e membros da iniciativa privada da Argentina veem no conflito no Oriente Médio uma oportunidade de dar mais tração aos investimentos em GNL no país – que se vende, nos grandes fóruns globais da indústria de óleo e gás, como fonte de gás seguro, fora das zonas de conflito.
Os players de Vaca Muerta têm, hoje, dois grandes projetos de GNL:
- Southern Energy: consórcio formado pela Pan American Energy, YPF, Golar LNG, Pampa Energía e Harbour Energy que investe em dois navios de liquefação no Golfo San Matías e que começam a operar em 2027/2028. Capacidade total de 6 milhões de toneladas/ano de GNL, dos quais 2 milhões estão contratadas a longo prazo pela alemã SEFE.
- Argentina LNG: projeto da YPF, Eni e XRG que contempla dois navios de liquefação, também no Golfo San Matías, com capacidade total para 12 milhões de toneladas/ano de GNL e previstos para 2031.
Os projetos miram o mercado global de GNL e têm conseguido acesso ao capital privado.
Rivaldo Moreira Neto, sócio-diretor da A&M Infra, consultoria especializada em projetos de infraestrutura, não acredita que o leilão brasileiro de gás do Brasil vá mudar a rota dos produtores argentinos em direção à exportação de GNL, mas pode funcionar como uma “fagulha” para começar a criar as condições necessárias para integração regional via gasodutos.
Na avaliação do executivo, pela multiplicidade de atores envolvidos nos diferentes países (dezenas de produtores, traders, consumidores industriais e transportadores), a integração regional não se dará sem um elemento de coordenação. E o leilão estruturante do Brasil pode ser um teste de mercado interessante nesse sentido.
“Com um leilão no Brasil, tendo um governo junto por trás, acho que isso tem um contorno de conforto para os agentes assumirem algum nível de risco a contratos de longo prazo. Porque o leilão é um mitigador natural do risco (…) É um grande teste, porque seria uma primeira provação, de efetivamente afunilar as pontas e levá-las à negociação num ambiente concorrencial”, comentou.
Integração ainda trava em infraestrutura e preço
Como já mostramos por aqui nas gas week, a integração do Cone Sul, se bem sucedida, pode destravar novas demandas por gás no Brasil e, no cenário mais otimista, reocupar com gás argentino até dois terços da capacidade do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), além de destravar novas rotas alternativas.
- O Gasbol é a porta de entrada existente do gás de Vaca Muerta nos grandes centros industriais do Brasil e opera com elevada ociosidade devido ao declínio da produção boliviana.
Mas a integração gasífera regional passa pela necessidade de investimentos bilionários em infraestrutura nova.
Um estudo recente da Organização Latino-Americana e Caribenha de Energia (Olacde) mapeou uma carteira de mais de dez projetos na região, da ordem de US$ 25 bilhões, para fazer essa integração acontecer em seu pleno potencial.
A lista inclui desde obras de reforço da malha existente a novos gasodutos em seis países: Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Uruguai e Paraguai (que se coloca como rota alternativa à Bolívia, na tentativa de atrair uma indústria gás-intensiva para o país).
- Na Argentina, as principais obras visam ampliar a capacidade de escoamento firme da Bacia Neuquén, para atendimento tanto ao mercado interno quanto externo (Chile e Brasil);
- No Brasil, destaque para a Conexão Brasil-Argentina (conclusão de um projeto dos anos 2000 para ligar Uruguaiana, na fronteira, à malha integrada de gasodutos); além da duplicação do Trecho Sul do Gasbol.
Nem todos os projetos mapeados serão, necessariamente, implementados. Depende, por exemplo, das rotas (algumas concorrentes) que prevalecerão.
A Olacde reconhece o desafio de pôr em marcha todo esse investimento, já que se tratam de projetos de grande magnitude que envolvem estruturas de financiamento que requerem contratos firmes de longo prazo — uma condição que os mercados regionais “nem sempre estão em condições de assumir com o perfil de risco exigido”, cita o relatório.
O estudo da Olacde também conclui que, nas condições atuais, o gás argentino não conseguirá entrar de forma competitiva nos principais centros de consumo do Brasil – em especial São Paulo.
O gás de Vaca Muerta é muito competitivo na cabeça do poço, com um preço da ordem de US$ 3 por milhão de BTU na entrada do sistema de transporte, mas o empilhamento de tarifas na malha de gasodutos no percurso (Argentina-Bolívia-Brasil) corrói essa competitividade. Nos primeiros testes, o custo do gás argentino ao chegar ao Brasil foi o triplo dos US$ 3 o milhão de BTU.
Embora o governo argentino tenha flexibilizado os preços mínimos de exportação, eles ainda estarão em vigor até o fim de 2028.
O relatório cita, então, a necessidade de se avançar numa agenda de competitividade nos países argentinos, o que passa por:
Adicionalmente, a Olacde entende que poderá ser necessário um tratado multilateral que funcione como guarda-chuva para proteger o desenvolvimento do mercado e promover a institucionalização de instâncias de coordenação operacional, gestão de crises, solução de controvérsias e harmonização regulatória gradual.
- Os países da região precisarão avançar, portanto, numa agenda regulatória e tarifária – uma missão complexa e que pode ser influenciada por convergências ou divergências políticas dos países, governados hoje por espectros ideológicos divergentes.
- Para ficar de olho: a maior economia regional, o Brasil, terá eleições presidenciais em outubro, o que pode, eventualmente, mudar os rumos da política energética vigente (incluindo a realização do leilão estruturante de gás) e das relações diplomáticas com os países vizinhos.
Como o gás argentino pode ajudar o Brasil?
O Brasil se prepara para um aumento expressivo de sua oferta de gás até 2031, com os novos projetos de Raia, no pré-sal, e Sergipe Águas Profundas — que somam uma capacidade de produção de 34 milhões de m³/dia.
Um dos grandes méritos da chegada do gás argentino ao Brasil, se ele conseguir chegar de forma competitiva, será aumentar o grau de contestabilidade aos preços desse gás offshore.
Num ano em que a guerra no Oriente Médio sacudiu os preços no mercado global, o diretor Comercial da Total Austral, Luciano Rojas, defendeu recentemente que o gás argentino desponta como oportunidade para reduzir a dependência do Brasil dos preços internacionais do petróleo – principal indexador do preço do gás no mercado brasileiro.
A chegada do gás argentino no Brasil pode ser também um elemento de desconcentração do mercado brasileiro.
Perspectiva de integração movimenta empresas
As perspectivas de integração entre Brasil e Argentina já movimentam produtores (do lado argentino da fronteira) e traders do lado brasileiro.
A lista de agentes que já têm autorização da Secretaria de Energia da Argentina para exportar gás argentino ao Brasil inclui dez produtores – e 14 comercializadores com os quais possuem acordos de suprimento.
É um ecossistema heterogêneo, que envolve produtores locais, multinacionais e grandes traders e consumidores de gás no Brasil:
Reconstrução da confiança numa história sexagenária
Foi no primeiro semestre de 2025, na janela de verão, quando a Argentina tem excedentes para exportação, que o gás de Vaca Muerta chegou ao Brasil pela primeira vez, em fases de testes para comprovação da rota via Bolívia.
Um marco: o gás argentino representa, para o Brasil, o acesso a uma nova fonte que pode reforçar a segurança energética e dinâmica concorrencial do mercado.
Uma operação que envolveu a montagem de planilhas de operação com diferentes transportadores (mais de um em cada país) – e sujeitos a diferentes regulações, dinâmicas operacionais, questões aduaneiras etc.
E que envolveu não só agentes de Brasil e Argentina, mas também a Bolívia – que nesse percurso mudou seu marco legal, para que a estatal YPFB pudesse assumir o papel de trânsito internacional do gás argentino ao Brasil. A YPFB, aliás, mira no futuro atuar também como trader do gás de Vaca Muerta.
No verão 2025/2026, os volumes, até então pequenos, cresceram – ainda que limitados por gargalos logísticos e disponibilidade flexível e sazonal.
A TBG, que opera o Gasbol no lado brasileiro, estima que fluxo de gás argentino pelo gasoduto girou em torno de 2 milhões de m³/dia, na média, durante a janela de verão deste ano.
Um novo capítulo de um projeto de integração Argentina-Brasil que começou há mais de duas décadas, mas que foi interrompido ainda nos anos 2000 sem nunca ter sido concluído. (relembre essa história)
A construção da integração gasífera do Cone Sul passa, nesse sentido, pela necessidade de reconstrução dos laços de confiança.
A cultura de controle de preços que, no passado, levou a produção local argentina ao declínio — e culminou, nos anos 2000, na interrupção do fornecimento ao Chile e ao próprio Brasil – ainda é uma sombra nessa relação?
A questão não é exclusividade no nosso continente.
- Uma das principais mensagens trazidas por lideranças do setor de óleo e gás durante a Offshore Northern Seas (ONS) 2026 na Noruega, esta semana, foi que a criação de laços de confiança entre países, fornecedores e produtores será um dos principais desafios para enfrentar as crises geopolíticas e atender ao aumento da demanda global por energia nos próximos anos.
- “Confiança é a commodity mais importante do mercado de energia hoje”, disse o diretor executivo da Agência Internacional de Energia (IEA, em inglês), Fatih Birol.
Em 2027, a integração gasífera na América do Sul completa 60 anos.
Uma jornada que começa pela aproximação entre Argentina-Bolívia, primeiro, e que décadas depois, nos anos 1990, ganha tração com Argentina-Chile; Brasil-Bolívia; Argentina-Brasil; Argentina-Uruguai; e Colômbia-Venezuela.
Uma história de muitas idas e vindas, avanços e retrocessos. (veja o breve histórico no infográfico)
Contaremos aqui na gas week os próximos capítulos dessa história.
GÁS NA SEMANA
Transportadoras judicializam RCM. A ATGás ingressou com ação judicial contra a ANP para derrubar o Método de Capital Recuperado (RCM) – metodologia alternativa para valoração da base de remuneração da NTS e TAG. A ação questiona o rito regulatório da ANP e antecede a aplicação de fato do método, já que a revisão tarifária ainda não foi concluída.
Agenda regulatória do gás. As decisões que estão sendo tomadas pela ANP para ampliar a competitividade do gás são similares àquelas tomadas na Europa nas últimas décadas e que resultaram em um preço final mais competitivo para a molécula, defendeu o diretor da agência, Pietro Mendes, em entrevista exclusiva à agência eixos no ONS 2026, na Noruega.
- E o Brasil está indo na direção certa com as discussões sobre acesso à infraestrutura e desverticalização no mercado de gás, afirmou o vice-presidente de E&P internacional da Equinor, Philippe Mathieu: “Os tópicos em debate são corretos”, afirmou, também em entrevista exclusiva à eixos no ONS 2026.
- Opinião: Regras de acesso não discriminatório a gasodutos de escoamento e UPGNs podem destravar abertura do mercado, reduzir barreiras e viabilizar leilões de gás da PPSA, escrevem Tiago Santana e Andressa Gonçalves, respectivamente, sócio e consultora do Perman Advogados.
Gás para a indústria de base. A resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) que estrutura os leilões de gás da União, publicada na terça (25/8), reafirma a indústria de base como destino prioritário da política; define diretrizes para precificação da molécula; dentre outros destaques. Confira os principais pontos da resolução
Redata no esforço concentrado. O presidente Lula (PT) fechou acordo com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos/PB); e do Senado, Davi Alcolumbre (União/AP), para votação nos próximos dias de um pacote de cinco projetos considerados prioritários pelo governo — entre eles o programa de estímulos à instalação de data centers com consumo de energia renovável.
Leilão de resíduos. O governo do estado de São Paulo pretende realizar, em 2027, os leilões do Programa Integra Resíduos, iniciativa que reúne municípios em blocos regionais para dar escala ao tratamento do lixo e viabilizar projetos de aproveitamento energético, incluindo a produção de biogás e biometano.


